A Rachel deixou um comentário no post do Você pergunta a gente responde.

“Olá,
Minha filha tem 6 anos e há 5 meses não come mais nenhum tipo de carne
ou qualquer alimento vindo de animal (ovo, presunto, frango, peixe,
carne vaca, salsicha…). Bem, para piorar a minha situação ela já não
comia verduras e legumes, exceto cenoura… Vive a base de arroz,
batata, macarrao e frutas (adora!!!). O argumento dela para evitar
esses alimentos é não matar o bichinho, ou seja, virou vegetariana
radical. Em casa, ninguém é. Como lidar com uma crianca vegetariana e com as limitações de paladar dela?
Muito obrigada,  Rachel”

Não sei se é tendência, mas conversando com uma colega jornalista sobre o comentário da leitora, a Silvia, minha colega, contou que uma prima dela está passando pela mesma questão. O filho de 6 anos decidiu ser vegetariano para preservar os bichos e o meio ambiente.

Que as crianças copiam comportamentos, adotam atitudes a partir do que está no mundo, a gente sabe. Mas virar vegetariano para não matar vaca e frango, ai, ai, ai, isso é demais, gente. (Explicando: não é demais ser vegetariano. Pirei foi na história de parar de comer carne para proteger os animais. Criança é tudo fofo!)

A prima da Silvia ficou preocupada com a alimentação do filho e procurou a nutricionista Elaine Rocha Pádua para ter orientações sobre como proceder. Daí, fui conversar com a Elaine também. E ela deu uma aula sobre o tema, que aliviou o meu coração (afinal Miguel não é nem um pouco chegado em carne, mas não por questões ideológicas e sim por gosto mesmo). Espero que alivie o da Rachel também e de outras tantas que estejam passando pelo mesmo perrengue.

Como a conversa gerou um texto longo, vou dividir o post em quatro partes. Segue a primeira:

“A mãe deve manter a calma, mas aos poucos conversar com a criança e incluir o quanto antes uma refeição colorida e equilibrada, mesmo que não seja possível incluir as proteínas animal. 

Como em qualquer dieta, ela deve ser planejada cuidadosamente para que forneça quantidades adequadas de calorias, carboidratos, gorduras, proteínas, vitaminas e minerais. Quanto mais variado for o cardápio desta criança, menor a chance de deficiências de calorias, vitaminas e minerais.

Calorias: A criança está em fase de crescimento e desenvolvimento, sendo assim, necessita de uma grande quantidade de energia (calorias). Mas, por ter um estômago mais limitado, não consegue ingerir grande quantidade em uma refeição. Para ajudar nesta situação é importante ofertar alimentos densos caloricamente (que fornecem energia em um volume pequeno), como castanhas, nozes e leguminosas (lentilha, grão de bico, feijão, ervilha). Já que as dietas vegetarianas contêm muitas fibras, estas não devem ser dadas com exagero para não ocupar muito espaço no estômago do pequeno, evitando o déficit de calorias, até porque, se a criança comer um monte de folhas, não conseguirá atingir a quantidade de calorias que necessita. Para garantir um crescimento adequado, uma dica é monitorar o peso e estatura da criança com frequência.

Gorduras: As gorduras desenvolvem papel fundamental na nutrição das crianças, sendo necessário o consumo equilibrado junto com os demais nutrientes. Alguns exemplos da atuação da gordura no nosso corpo são: fornecimento de energia, transporte de vitaminas, desenvolvimento de órgãos, produção de hormônios etc. Por isso, a baixa oferta de gordura em dietas vegetarianas pode comprometer o desenvolvimento e o crescimento ideal da criança, além de tornar o cardápio pouco calórico. Se possível, oferte alimentos como nozes, semente de linhaça, amendoins, castanha-do-pará, castanha-de-caju, amêndoas, macadâmia, frutas secas etc. Para crianças pequenas, cuidado com amendoins e sementes, já que elas podem engasgar.

 Proteína: Se a ingestão de calorias estiver adequada e a criança não estiver comendo muitos doces e guloseimas, a quantidade de proteína pode ser facilmente alcançada, desde que a dieta seja variada. Neste caso, é muito importante ressaltar que, se a criança não consumir a quantidade necessária de calorias, a proteína será utilizada como fonte de energia atrapalhando o crescimento dos pequenos.

Ferro: Um cardápio restrito em ferro pode gerar um quadro de cansaço, apatia, fraqueza, podendo levar a doenças mais sérias como a anemia, o que pode prejudicar o desempenho da criança na escola, dificultando o crescimento. A anemia ainda é uma realidade brasileira não só em crianças vegetarianas, mas também em crianças que recebem uma alimentação tradicional. Não há comprovação de que as crianças vegetarianas ingiram menos ferro, mas é de suma importância estar alerta para evitar essa deficiência. A dieta vegetariana fornece mais ferro não-heme (ferro vegetal), que não tem uma absorção tão eficiente como o ferro heme, presente na proteína animal. Para melhorar a absorção do ferro presente nos alimentos de origem vegetal (feijão, lentilha, ervilha, grão de bico, soja, couve manteiga, mostarda, brócolis) é importante associar alimentos ricos em vitamina C, pois estes ajudam na absorção do ferro não heme. Neste caso, inclua no cardápio laranja, acerola, caju, goiaba, maracujá, limão, morango, tomate, entre outros. Evite consumir chá ou café logo após as refeições já que este hábito pode atrapalhar a absorção deste mineral.

“O equilíbrio das refeições com combinações adequadas permitem obter todos os aminoácidos (partes menores que formam a proteína) necessários. Os alimentos de origem vegetal não contêm um ou outro aminoácido, por isso, ao utilizar vários alimentos vegetais protéicos ao longo do dia você complementará o cardápio do seu filho. A carne, sob este ponto de vista, é um alimento completo porque possui todos os aminoácidos essenciais.

Incluir leite e derivados, ovos, leguminosas (feijão, lentilha, grão de bico, ervilha), oleaginosas (nozes, pistache, semente de abóbora e sementes em geral) e cereais (trigo, arroz e milho) pode ser uma excelente alternativa. Além disso, a dieta do brasileiro facilita muito, pois é à base de arroz e feijão, alimentos que, em proporção correta, fornecem todos os aminoácidos necessários.

Cálcio: Não podemos deixar de dizer que o cálcio é um dos nutrientes mais importantes para o nosso organismo, pois está envolvido na formação dos dentes e ossos. Crianças que não consomem leite e derivados podem apresentar deficiências. O ideal é ingerir alimentos ricos em cálcio como o tofu, leite de soja enriquecido, sardinha em lata, feijão, couve-manteiga, brócolis, almeirão, espinafre, agrião, mostarda, rúcula, melado de cana, quinua, aveia, entre outros.

 Vitamina D: Apesar de o Sol ser a principal fonte deste nutriente, recomenda-se que a criança obtenha algumas fontes alimentares como os alimentos enriquecidos, pois a vitamina D é essencial para absorção do cálcio e sua deficiência pode levar ao raquitismo. Cereais, leite de soja e o leite de vaca podem ser fortificados. Além destes, pode-se também incluir na dieta o óleo de fígado de bacalhau rico nesta vitamina.

 Vitamina B12: Infelizmente, um dos maiores desafios para o profissional da nutrição é conseguir a quantidade desejada e importante desta vitamina, já que a vitamina B12 está presente somente em alimentos de origem animal. A vitamina B12 é necessária para formar o sistema nervoso nas crianças, na produção de células novas, age na produção de sangue e sua deficiência pode causar anemia. Neste caso, o ideal é recorrer ao consumo de alimentos fortificados e, segundo a Associação Americana de Pediatria, recomenda-se que  crianças vegetarianas recebam suplementação de Vitamina B12. Mas converse com o pediatra para avaliar a necessidade.

Fibras: O excesso de fibras pode atrapalhar a absorção de alguns minerais como ferro, cálcio, magnésio e zinco, pois algumas possuem fitatos que se ligam a estes minerais e impedem a sua absorção. Além disso, o excesso de fibras leva também a perda de minerais, pois carregam alguns destes micronutrientes para serem excretados nas fezes.

Zinco: O zinco é um mineral essencial para um ótimo desenvolvimento cerebral, para produção de células, dentre outras funções. Como ele é facilmente encontrado em alimentos de origem animal, os vegetarianos devem incluir o zinco proveniente de fontes vegetais, mas tomando cuidado com fibras e fitatos presentes nestes alimentos que podem diminuir o aproveitamento do zinco. Semente de abóbora, feijão azouki, castanhas, germe de trigo e tofu são excelentes fontes de zinco.

“Enriqueça a salada de seu filho com óleos vegetais de boa qualidade como: Azeite extra-virgem, óleo de linhaça, óleo de macadâmia, óleo de gergelim. Você pode fazer um mix de óleos e temperar a salada.

– Salpique castanha-do-pará, ou castanhas-de-caju, ou amêndoas sem sal, ou nozes em cima de uma salada bem colorida e variada.

– Sirva leguminosas variadas como feijão, grão de bico, lentilha, soja e ervilha diariamente.

– Prepare os legumes no vapor para preservar os micronutrientes (vitaminas e minerais).

– Utilize a semente de linhaça em preparações como: shakes, sucos, sopas e tortas e biscoitos.

– Faça sanduíches com tofu e cenourinhas, tahine e alface picadinha e patê de soja com rúcula.

– Ofereça bolinhos de arroz com missô e cebolinha.

É possível conquistar hábitos saudáveis promovendo um ótimo crescimento e desenvolvimento dos pequenos desde que haja planejamento na alimentação. Podemos ofertar alimentos variados, coloridos em quantidades ideais que atendam as necessidades individuais de cada um seja esta criança vegetariana ou não, o equilíbrio é a chave do sucesso.

Viu! Não é difícil. Não requer briga tampouco estresse. Mas, sim, planejamento!

Beijos,

Patricia